sábado, 17 de novembro de 2012

DIVULGADO CAPÍTULO DE A CASA NÚMERO 11, de RENATO OZZ


DIVULGADO CAPÍTULO DE A CASA NÚMERO 11, de RENATO OZZ


CAPÍTULO 1
    Antes que o segundo tiro soasse, atingindo o lado do corpo da sua mulher, Jorge Savigny entregou a Deus o seu último pedido. Usou todas as forças que tinha, vibrando com a potência da alma, somada ao esforço extraordinário para manter-se vivo. Era tudo o que queria. Ou ao menos o que pretendia.
    Mas as coisas não pareciam muito claras em sua mente. Havia agora pessoas olhando para ele. Na verdade, dois estranhos, antes inexistentes. Um casal. Um homem baixo e atarracado e uma mulher loira e magra, sentados perto do portão do galpão, com os rostos acinzentados e com uns olhos penetrantes, sinceros e cheios de dor, que Jorge, no limiar das suas forças, se recusava a crer que fossem de humanos.
    — O coitado levou a coisa para o lado pessoal – disse a mulher, cuspindo um pedaço de saco plástico, enquanto cruzava os braços sobre um grande buraco que borrifava pus e lodo de dentro do peito esquelético.
    — Eu compartilho da aflição dele. Uma brutalidade dessas não devia ser permitida – falou o seu companheiro, num tom sussurrante e machucado, produzido por uma boca costurada com um nylon que se estendia até o pescoço, inchado e cheio de hematomas.
    Jorge, entregue ao próprio desespero e à desesperança, rolou para o lado, caindo com a boca aberta sobre um monte de tralhas velhas e capim seco, sentindo o jorro de sangue descer por sua barriga. Pássaros voaram assustados com os estrondos dos tiros, fugindo do topo das árvores, e confundindo-se com o ruído incomodativo de um trator, que, ao longe, muito longe mesmo, mostrava-se apto para abafar qualquer pedido de socorro.
     — Estamos perdidos – murmurou, arrastando as pernas.
    O corpo, agora a pura expressão da agonia, virando para o lado. As pernas torcidas. O ar queimando ao penetrar nos pulmões. A sensação do fim. As mãos tingidas pelo sangue. O seu sangue. A dor. O medo. O pavor de não poder socorrer e proteger as pessoas que amava. Um riso sarcástico vindo do alto. Dizendo coisas para lhe perturbar, multiplicando o espanto, o arrependimento, a aflição. Um gosto azedo escorrendo pela garganta. A raiva. A ira. O horror. A completa impotência. Os olhos fechando, a respiração ofegando.
    — Ainda está vivo, boneco? – riu o algoz, mexendo no seu rosto com a ponta ainda quente e fumegante do cano duplo.
    — Infeliz. Monstro – esbravejou a mulher magra, levantando e socando com uma das mãos abstratas o rude corpo do assassino.
    — Pobre rapaz – murmurou o homem baixo, sacudindo o corpo para a esquerda, exibindo o lado descarnado repleto de ossos escuros e furados.
    Jorge espremeu os olhos, antes de explodir:
    “A morte é loucura” – gritou em pensamento.
    O matador ajoelhou-se junto dele. Havia um riso vitorioso em sua cara.
    — Vou ficar aqui sentado esperando você morrer.
    —Tome cuidado – disse-lhe a mulher magra, empurrando para dentro um tufo podre do pulmão, que teimava a escorrer para fora do seu corpo.
    O assassino mantinha o riso congelado, esfregando cinicamente as mãos no cabo do rifle, deliciando-se com a sua incapacidade.
    — Você tem um belo carro. Usado, mas um bom carro – sussurrou.
    Jorge olhou para o Ford estacionado, ainda com uma das portas abertas. O veículo o convidava a levantar-se e fugir. Sabia que suas chances eram escassas. Mas teria que fazer. Por tudo o que amava, pela mulher, pelo filho, por ele, pela sua dignidade, pela chance de lutar, por ainda acreditar ser merecedor da vida.
    — E se tentasse? – pensou num ritmo lento.
    O matador lhe deu um cutuco. Jorge fitou o seu rosto. Viu o demônio. Viu o desprezo. Enxergou o olhar mais terrível, mais tenebroso e horrendo jamais visto. Desviou-se daquela figura encharcada de suor e sangue, e tornou a mirar o automóvel. Mas nada nele lhe motivava a manter acessa a chama da esperança. Havia dentro dele vultos negros, com feições magérrimas e entristecidas, e sacos sujos e furados, de onde jorrava uma lama enegrecida, que escorria até junto da sua face, embebendo e empastando sua boca e as suas narinas.
    — Não! – um grito feminino colocou-o alerta. Não vinha da mulher loira e magra, que havia desaparecido junto com seu companheiro moribundo e com toda a podridão que jorrava de dentro dela.
    — Mônica – murmurou sem forças, esfregando-se no próprio sangue.
    — Fêmea gostosa – disse o assassino sagazmente, arrastando a mulher pelos cabelos. – Vem ver o seu maridinho morrer.
    Jorge olhou para o lado, buscando uma última imagem, e fechou bem devagar os olhos. Nada mais poderia fazer. A consciência lhe dizia isso. Nada mais, somente aguardar. Então, com os ouvidos ainda atentos nos passos pesados do matador, que tinha se levantado, Jorge inspirou profundamente, pedindo a Deus que lhe desse uma segunda chance para, ao menos, poder proteger o seu campeão.
 

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